segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os dias

Tem sido um pouco assim. Dançar sem nenhum combinado, ficar lá, de olhos fechados, no balanço do som, naquela vibração da caixa torácica. Descer as escadas rápido ou passo a passo, ficar leve, estender a canga no parque. A cerveja a abrir no quarto, em meio a papeis importantes e outros nem tanto. Das coisas que tenho aprendido, nem solidão, nem liberdade, alongar o corpo como alongar o tempo, me permitir. Ser casa e viagem de mim.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Se vai nascer e ser mulher

O que dizer, menina? Foi um soco, chute, uma queda bruta? A placenta descolou, foi-se embora o prazer de ser puro gozo. Sei, pequena, que num mundo bom, dentro da menina, a menina dança, não dói, nem sofre. Mas aqui, meu bem, tem dias que são difíceis de engolir, vira-e-mexe sempre tem uma amiga, uma mãe, uma irmã para acudir, quando não somos nós. Me parece que os homens não aparecem nessas horas. Pequena, não sei se antes de se levantar sua mãe chorou, não sei quem acudiu, quem vaiou. Só queria dizer a ela que eu queria ter estado lá, estendendo a mão. Em dias assim, penso que a sororidade é o estender de mão capaz de fazer doer menos a ausência daquilo que esse mundo bruto nos tirou.