Verdade que antes, quando eu via o sofrimento alheio em tempos de despedidas, me achava insensível por não chorar do mesmo choro, cheguei até mesmo em certa ocasião a forçar uma lagriminha de sofrimento por cumplicidade. Hoje, posso dizer que me compreendo melhor e confesso ter um gosto particular por esses tempos de se despedir. Para mim, as despedidas têm uma força que atenua os desencontros e amansa os sentimentos que nos apequenam, seja a inveja, a mesquinharia ou a avareza. Ela faz sim, da gente, coisa melhor do que somos geralmente. Gosto quando algumas conversas perto das despedidas ficam com o frescor dos primeiros encontros, mas são mais. Se no calor da chegada fazemos de um tudo para despertar em nós o nosso melhor, na despedida há algo que se revela sobre o qual passamos toda aquela existência para vermos se revelar, e que só se mostra por essa vontade que nos dá de alargarmos as bordas do presente, não porque está tudo bom ou muito bem, mas porque parece que é só nas despedidas que juntamos forças para partilhamos - em conjunto - do pacto com o Tempo, de que ele é o verdadeiro senhor de tudo. Gosto especialmente dessa sensação, de ser colocada, junto com os que mais amo naquele instante,em comunhão com o Tempo.
Cheio de ar
domingo, 19 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Os dias
Tem sido um pouco assim. Dançar sem nenhum combinado, ficar lá, de olhos fechados, no balanço do som, naquela vibração da caixa torácica. Descer as escadas rápido ou passo a passo, ficar leve, estender a canga no parque. A cerveja a abrir no quarto, em meio a papeis importantes e outros nem tanto. Das coisas que tenho aprendido, nem solidão, nem liberdade, alongar o corpo como alongar o tempo, me permitir. Ser casa e viagem de mim.
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
Se vai nascer e ser mulher
O que dizer, menina? Foi um soco, chute, uma queda bruta? A placenta descolou, foi-se embora o prazer de ser puro gozo. Sei, pequena, que num mundo bom, dentro da menina, a menina dança, não dói, nem sofre. Mas aqui, meu bem, tem dias que são difíceis de engolir, vira-e-mexe sempre tem uma amiga, uma mãe, uma irmã para acudir, quando não somos nós. Me parece que os homens não aparecem nessas horas. Pequena, não sei se antes de se levantar sua mãe chorou, não sei quem acudiu, quem vaiou. Só queria dizer a ela que eu queria ter estado lá, estendendo a mão. Em dias assim, penso que a sororidade é o estender de mão capaz de fazer doer menos a ausência daquilo que esse mundo bruto nos tirou.
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